A aparência ganha força no mundo digital

O debate sobre a aparência e a essência é clássico. E, como todo clássico, muitas vezes é esquecido. Ainda mais no contexto de crescimento do culto à imagem.

Historicamente, a aparência se coloca como rainha das atenções ou dos holofotes. E quanto menor são os valores e crenças de uma sociedade, maior a supremacia da aparência em detrimento à essência.

A aparência é a forma como as coisas nos são apresentadas, aquilo que se mostra aos nossos olhos, às nossas percepções ou entendimentos a partir de uma leitura ou juízo de valor.

A aparência pode externar sentimentos positivos e gerar autoestima. Na prática valorizamos a beleza física, idolatramos um rosto bonito, observamos um corpo escultural, somos atraídos por quem tem uma boa retórica ou é “bom de lábia”, somos impactados por um sorriso perfeito e acreditamos na riqueza como solução dos nossos problemas.

O contrário também é verdadeiro, a aparência pode trazer consigo sentimentos negativos ou falsidades. Somos sensibilizados por uma história triste, ficamos impactados em uma ver uma pessoa com dificuldade física, nos revoltamos quando ouvimos sobre um crime e, em muitos casos, olhamos apenas um lado da história.

Temos que ter consciência de que a internet potencializa o mundo da aparência: no mundo virtual, nem tudo o que parece ser, necessariamente o é!

Podemos começar a reflexão com as Fake News (notícias falsas) que fazem com que pessoas saiam de casa para buscar um emprego que não existe ou votem em um candidato a partir de uma boa mentira contada pelo WhatsApp.

Também é importante prestarmos atenção nos influenciadores digitais, se eles não vendem “gato por lebre” ou se não são fakes (por criarem a aparência de ter um grande público a partir de um falso engajamento). Há vários exemplos, desde a influenciadora vegana que dava dicas de cardápio sem nenhum ingrediente de origem animal e, em sua rotina alimentar, incluía alimentos de origem animal. E os casos mais sérios, que são as celebridades digitais que ostentam a riqueza e ensinam seus seguidores a fazer fortuna usando a prática de pirâmides, enganando as pessoas.

A aparência na internet é uma porta aberta para fragilizar pessoas emocionalmente carentes. Somam-se os casos de pessoas que são atraídas por fotos postadas em sites de relacionamento e são usurpadas ou roubadas por aquela pessoa que lhe fez juras de amor no mundo virtual.

Entretanto, a aparência não é a senhora apenas no mundo virtual, ela ocupa um grande espaço nas relações cotidianas, no dia a dia. E para que a aparência tenha um papel secundário é importante que saibamos valorizar a essência ou até mesmo ressignificá-la.

A essência é o que está por traz da aparência. Representa a natureza de uma pessoa, os seus princípios, valores e as suas crenças. Tem relação com a sua educação, com a sua cultura ou sua religião. É onde está o caráter e a régua moral que nos faz distinguir o certo do errado. A essência não se mostra de forma objetiva, necessita de tempo e relacionamento, precisa de convivência. A essência é aquilo que realmente somos, é parte da nossa alma.

Muitas pessoas são tão envolvidas pelo mundo da aparência que acabam perdendo a sua essência ou perdendo a capacidade de procurar a essência do outro, de valorizar o que realmente tem valor. As maiores belezas do ser humano estão ligadas aos seus gestos e à sua bondade, à sua capacidade de respeitar, de se solidarizar e de amar.

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br
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