A incerteza da opinião em época de pandemia

Parei para analisar os resultados de pesquisas de opinião realizada pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em várias cidades do RS na última semana. São pesquisas que avaliam o comportamento e a percepção da população gaúcha sobre o momento em que vivemos e as medidas restritivas impostas pelos governantes.

É difícil para as pessoas responderem pesquisas de opinião que tratam sobre a Codiv-19. E esse dilema está associado à dicotomia entre o que aparece na televisão e a realidade em que se vive, o cotidiano de cada cidade.

A maioria da população afirma que está preocupada e bem informada sobre o Coronavírus. Na prática, afirmam que “não aguentam mais” receber mensagens sobre a Covid-19 pelo WhatsApp ou assistir às notícias pelos meios de comunicação, em especial, pelos telejornais. É como se assistissem a uma novela onde o vilão não para de fazer maldade.

E esse sentimento ocorre porque há muita incerteza e dúvidas. De um lado, se vê as estatísticas das mortes, as notícias sobre enterros em massa, hospitais entrando em colapso e os tristes depoimentos de quem perdeu um familiar. De outro lado, se sai à rua com a sensação de que não há perigo eminente. Tem-se a percepção de que a vida irá voltar ao normal e, inclusive, há quem acredite que o isolamento foi um exagero.

Quando o tema avaliado questiona o isolamento social, há mais dúvidas. Metade dos gaúchos é favorável ao isolamento e a outra metade é contra. Mas essa avaliação não está associada apenas a uma posição, a uma opinião. Ela é resultado de uma necessidade básica de sobrevivência, que tem como base a ideia de que a economia é mais importante do que a defesa de “uma ciência que parece não entender a realidade das pessoas”.

Os que concordam com o isolamento, são aqueles que tem renda fixa, maior grau de escolaridade e condições de executar as suas tarefas remotamente. A grande maioria, que se mostra contra o isolamento social, vive o dilema de manter seu empreendimento, de lutar pelo seu negócio, de garantir o seu emprego ou até mesmo de tentar sobreviver como trabalhador autônomo ou informal. São pessoas que nãos sabem como irão pagar as contas que chegam ou como irão alimentar sua família. Muitas pessoas que têm essa opinião estão nas filas do auxílio emergencial, sendo que alguns continuam invisíveis ao sistema de proteção social (não tendo nem CPF).

Quem é contra o isolamento pela necessidade de subsistência básica afirma que “se o vírus não matar, a fome irá matar”. A maior parte dessas pessoas tendem a apoiar as indicações do Presidente Bolsonaro, pedindo a retomada das atividades econômicas. É como se o Presidente entendesse a angústia dessas pessoas e as representasse. Quem está focado na necessidade econômica não acredita que haverá mortes e muitos indicam um culpado, seja um país ou até mesmo o sensacionalismo dos meios de comunicação.

As pessoas são movidas por expectativas ou dores. E nesse momento, muitos gaúchos se preocupam com a realidade econômica e a sua dor está associada à diminuição das perdas econômicas ou à necessidade de provir a alimentação de sua família.

A realidade dá o passo para a opinião e se alinha, naturalmente, a posições políticas que tratam a pandemia como uma crise qualquer. Essa instabilidade política na condução da pandemia pode transformar a dor daqueles que sofrem com as perdas ou as dificuldades econômicas em um luto pela morte de seus amigos e familiares.

 

https://www.coletiva.net/colunas/a-incerteza-da-opiniao-em-epoca-de-pandemia,357071.jhtml

 

 

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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