A opinião pública entre o real e o virtual

Vivemos em tempo de mobilizações instantâneas, da viralização de notícias e da espetacularização da polêmica. Ingredientes completos para incitar o debate da opinião pública no meio “online”. Afinal, quem nunca se deparou em uma zona de conflito cibernético, em que ofensas e xingamentos são apresentados como argumentos para a defesa de uma ideia ou opinião?

Mas nem só de comentários ofensivos e abusivos a rede é habitada. Há pessoas que se utilizam do mesmo espaço para discutir e compartilhar convicções, princípios e ideologias. E sabe o que esses dois grupos tem em comum? Ambos contribuem para a ampliação da troca de conhecimento possibilitando a reestruturação de novos significados. Assim, a internet acaba ganhando o status de esfera pública justamente por ser o meio onde essas opiniões ganham relevância. Interessante, não é? Mas saiba que nem sempre foi assim.

Segundo Champagne (1998)1 o sentido de opinião pública perpassa os séculos XVII, XVIII e XIX. No primeiro, a opinião era tratada como um sentimento particular ou de várias pessoas que poderia ser compartilhada. Já no segundo, a opinião foi tratada pela elite como apenas um conhecimento provisório e que somente obteria sentido se difundida pela elite social que frequentava os bancos acadêmicos e salões literários. Já na maior parte do século XIX a opinião deixa de pertencer a um grupo elitista e passa às mãos de pessoas que representam a voz do povo.

E foi no final do século XIX que a opinião pública deu espaço ao que se chamou de “espírito público” – pensamento racional que todo cidadão deveria considerar. É a opinião ideal para se demonstrar nas ruas. Dentro desse espírito surgiram as opiniões privadas e públicas. A primeira não se anulava pensamentos que poderiam ser considerados errôneos, individuais e egoístas, apenas presumia-se que essas deveriam permanecer no debate do círculo familiar. Já a opinião pública era a única que poderia ser publicizada. Essa divisão não era concreta, apenas norteava a forma de condenação social destinada a cada cidadão que resolvesse se pronunciar.

Em tempos de avanços tecnológicos e expansão cibernética observa-se semelhanças dos fatos do passado com os que acontecem hoje. O chamado “espírito público” do final do século XIX ganha o nome de “Politicamente correto” ou o popular “Mimimi” e passa a coexistir tanto na internet, em que se ganha dimensões elevadas, quanto no cotidiano pessoal, aquele das relações de contato diretas (rodas de amigos, colegas e conhecidos).

Esse comportamento segue a tendência da interatividade moderna e estudos já apontam mudanças comportamentais na população do Rio Grande do Sul. Traçando um comparativo, segundo mostram as pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, a relação do público gaúcho com internet tem se aperfeiçoado, em especial nas Redes Sociais, uma vez que 60% da população do Estado encontra-se presentes nos espaços de relacionamentos virtuais, o que indica que há um maior engajamento na relação do usuário no meio “online” do que se tinha com os meios tradicionais “offline”.

Logo, essa relação do “espírito público” que a internet disponibiliza e a exposição da opinião pública em tempo real é cada vez mais presente na vida dos gaúchos. Em estudos recentes do IPO, observou-se a queda na utilização dos meios tradicionais de comunicação (TV, rádio e jornal) em detrimento das mídias digitais. Constata-se que todos os dias há milhares de gaúchos postando opiniões, julgamentos e comentários sobre tudo e qualquer tipo de serviço. É o espaço público sendo ocupado por aqueles que, por anos, tiveram o silêncio por imposição.

A formação da opinião pública segue um ciclo que se retroalimenta a medida em que os indivíduos são instigados pelos veículos de comunicação a debater sobre questões cujo o juízo de valor social aparentava como definido. Em tempos de notícias e informações instantâneas é preciso mais do que nunca saber o que está sendo dito sobre empresas ou marcas no ciberespaço, afinal a opinião pública influência nos negócios.

Fazendo uma releitura de Champagne (1998) quanto mais espalhada estiver a opinião pública na sociedade, mais força social terá uma empresa ou marca no cenário em que atua, para isso a opinião se tornará mais “justa” e “sábia” se for inspirada pela minoria que pensa no “bem”. Segundo Voltaire “A opinião governa o mundo, mas são os sábios que, com o tempo, dirigem essa opinião”. E nos atuais jogos de negócios qual é o papel que sua empresa quer exercer?

1CHAMPAGNE, Patrick. Formar a opinião: o novo jogo político.Petrópolis, RJ: Vozes, 1996.

2 Comments
  • Luiz Fernando Tavares Meirelles
    Posted at 07:25h, 21 abril Responder

    Gostei do texto!

    Se “em estudos recentes do IPO, observou-se a queda na utilização dos meios tradicionais de comunicação (TV, rádio e jornal) em detrimento das mídias digitais”, quais e qual a ordem de preferência das mídias digitais pelos gaúchos, em especial, os pelotenses?

  • Jailson
    Posted at 09:50h, 26 maio Responder

    Parabéns pela abordagem inteligente e muito bem aplicada!

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