A origem do radicalismo que estamos vivendo

Desde a Constituição de 1988, o País ficou focado em atender lacunas históricas e o Congresso voltado a legislar o direito das minorias. Governo após governo a Constituição foi sendo alterada, tornando seu conteúdo em uma colcha de retalhos.

No Estado Democrático de Direito, como é o caso do Brasil, as minorias devem ser respeitadas. Mas o direito da minoria não pode se sobrepor ao direito da maioria, sob a pena de colocar em xeque o conceito de maioria. E, na prática, o conceito de maioria não foi o foco dos sucessivos governos.

Pelo princípio democrático, a vontade da maioria deve se sobrepor a da minoria, com o propósito de alcançar o bem comum. A decisão da maioria deve ter como farol a igualdade, a liberdade, a solidariedade e a isonomia.

O preâmbulo da Constituição diz que o Estado deve assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos.

O problema reside no distanciamento entre o que foi projetado pela Constituição e o que é entregue pela política brasileira.

A maioria da sociedade acumula indignação e frustração com os políticos e insatisfação com as sucessivas demandas não atendidas. O sofrimento da população está associado à ampliação da corrupção, à sensação de insegurança, ao aumento do desemprego, à ineficiência de serviços públicos (saúde, educação, infraestrutura) e à sobrecarga tributária.

Soma-se a este contexto a entrada da tecnologia, que amplia o individualismo e faz com que cada indivíduo se sinta empoderado e motivado nas redes sociais, ignorando os sentimentos e a opinião de quem está do outro lado. Cada um, por seu prisma, diz que não aguenta mais e que quer um país diferente.

Pronto: chegamos ao atual cenário, no qual uma maioria silenciosa se mobiliza espontaneamente tentando romper com o sentimento de impotência a partir da negação do que existe ou do que não funciona. Este cenário propicia o radicalismo e coloca iguais em lados opostos, amigos em desunião e faz com que o parco debate político se torne uma zona de disputa política: como se um lado estivesse certo e o outro não!

É um debate de quem acredita na minoria versus quem se preocupa com os dilemas da maioria. Pensando no anseio dos eleitores, cada um está certo, dentro de suas perspectivas, com base em sua visão de mundo. Os que defendem o direito das minorias estão preocupados em não perder o que duramente conseguiram, e os que defendem o direito da maioria estão preocupados em recompor a ordem do País.

O que todos têm em comum é a ojeriza, a negação da política e a percepção de que o País precisa romper com o jeitinho brasileiro. O recado é claro, temos que revisitar, reinventar a política, passando pelas práticas políticas, pela reorganização partidária e enfrentando as reformas políticas.

Agora, é um momento que o País precisa de muito discernimento, muita sabedoria para enfrentar essa negação e ter como propósito a garantia e o avanço dos direitos fundamentais.

Neste processo eleitoral, o País se divide entre os eleitores que acreditam que Bolsonaro (PSL) é a solução para moralizar e garantir a segurança pública, os eleitores de Haddad, que temem pelo desrespeito aos direitos individuais e, ainda, os que desejam um equilíbrio, que o Brasil atenda às maiorias e respeite suas minorias.

https://www.coletiva.net/colunas/a-origem-do-radicalismo-que-estamos-vivendo,283723.jhtml

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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