A tecnologia facilita ou dificulta os relacionamentos?

A pergunta parece banal e a resposta simples, pois cada um responde de acordo com as suas experiências. Aqueles que estão iniciando um relacionamento amoroso pelas redes sociais vão pular e responder que facilita. Quem fala com um parente ou amigo distante não tem dúvida de que a tecnologia facilita.

Agora, no relacionamento cotidiano, a tecnologia traz consigo muitos ruídos, dificultando a comunicação entre as pessoas. E esses ruídos nascem da impaciência, da facilidade de antecipar os diálogos, de tentar resolver os problemas pelas redes sociais, contando para o outro uma indignação, mostrando tristeza ou descontentamento com uma situação.

Não podemos esquecer que os relacionamentos em sociedade se dão pela convivência no mesmo espaço, pelo entendimento e respeito do outro, pela compreensão e solidariedade, pela comunicação direta, em que se utiliza todos os sentidos (um fala e outro escuta, gestos, olho no olho, etc.) e que os relacionamentos são baseados no compartilhamento de determinado contexto ou interesse em comum (família, romance, trabalho, sala de aula, amizades…).

E como “cada cabeça é uma sentença”, é normal haver divergências nos relacionamentos. O problema é que estamos debatendo esses atritos nas redes sociais ou em aplicativos de mensagens (como WhatsApp) e tornando os relacionamentos mais difíceis, tensos e minimizando a capacidade de entendimento.

Quando fazemos o debate de uma discordância de forma virtual, trazemos, naturalmente, conosco, o tradicional pré-julgamento e juízo de valor. Acrescentamos os novos dilemas sociais, que estão associadas à ampliação do individualismo, impaciência e à intolerância. Significa dizer que, como não estamos frente a frente com o outro, acreditamos que podemos dizer o que bem quisermos e na hora que quisermos (sem saber a situação que o outro está vivendo). Na prática, em um diálogo virtual, temos menos capacidade de empatia e esse fenômeno potencializa a leitura de que estamos certos.

Diante desse cenário o debate virtual fica mais forte e impiedosamente eternizado.  É um debate onde tudo fica registrado (em texto, áudio ou vídeos), permitindo que as partes possam voltar, reler, olhar e fazer novas releituras e interpretações. E essas novas releituras podem ampliar a animosidade, pois trazem consigo o julgamento e a condenação do outro, sem mais direito à defesa. Ou seja, no começo da conversa virtual havia o pré-julgamento estabelecido pela indignação ou ira que motivou o diálogo e, se as respostas não corresponderem às expectativas, a condenação pode ser sumária e resultar em uma conta bloqueada.

E nesse novo contexto a tecnologia vai interferindo na comunicação interpessoal e atrapalhando os relacionamentos, criando antipatias, ressentimentos ou rompimentos e potencializando disputas virtuais que não fazem sentido no mundo real.

Temos que desenvolver a consciência de que não podemos ser envolvidos em uma rotina de despachar tudo por Whats e que, em muitos casos, é mais indicado desenvolver a arte da paciência e esperar pelo encontro pessoal para tratar do ponto de discordância ou do ruído.

A tecnologia é uma grande ferramenta à disposição da sociedade, mas é vital que tenhamos consciência da sua influência no nosso comportamento e, por consequência, dos seus malefícios. Não podemos permitir que a tecnologia diminua a capacidade de diálogo e de entendimento entre as pessoas.

 

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br
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