As “bolhas” digitais estão atrás de um inimigo

No artigo da semana passada, sistematizei alguns dados para mostrar que as “bolhas digitais” não representam a opinião pública, não refletem a opinião da sociedade.

As “bolhas digitais” refletem a opinião de grupos ou pessoas que rivalizam ou polarizam os mais diversos temas, na maioria dos casos, em tom ofensivo e/ou desrespeitoso. Há pessoas que se agridem em “bolhas digitais”, criam a sensação de que há uma “guerra” em curso, uma “guerra” que está repleta de dor e ódio e que tem semeado a intolerância mútua.

Esse movimento é potencializado por dois tipos de comportamento: os que têm interesses políticos, defendem uma ideia, estão a serviço de uma bandeira ou causa, ou pelos que estão decepcionados com o sistema, negam a política, são antipolíticos. Na prática, os que têm interesse político motivam os que sofrem com o “descaso” da política.

Para entendermos esses dois comportamentos é necessário analisar a nossa cultura política e os movimentos estratégicos que motivam esses comportamentos.

Nossa cultura política é de ceticismo e desinteresse pela política. A democracia representativa pressupõe participação e exercício da cidadania, e nossa cultura e legislação casuística sempre motivou o personalismo, o clientelismo e o paternalismo político. A maioria da população participa da política na hora de votar!

O “desenvolvimento” da democracia no país é acompanhado por sucessivos esquemas de corrupção e a percepção de que os políticos atuam em causa própria, defendendo os interesses do seu grupo político. Essa imagem negativa da política é ampliada pelo sentimento de frustração e de impotência, causado pela precarização dos serviços públicos e pela percepção de que a justiça é para quem pode pagar.

Esse contexto é potencializado por estratégias de marketing e pelas Fake News que são preparadas para levar “juízos de valor” para as pessoas e investem na criminalização da política. É um debate que nasce tentando destacar o melhor entre os piores, se alimentando da indignação coletiva. Temos que ter consciência que estamos vivendo na égide do marketing de guerra, que busca um inimigo, “alguém para culpar.” Sempre há uma fala, uma postagem que ataca alguma coisa ou alguém. Nessa lógica, não nos preocupamos com soluções de futuro pois defendemos as ações do presente culpando o passado.

Uma parcela da sociedade tem se ocupado com o ataque, atuando na busca de um culpado, de uma frase que soe como inimiga. Parte desse efeito está associado ao fenômeno propiciado pela falsa proteção da internet, pelo empoderamento e pelo individualismo, onde cada um se sente dono da sua timeline.

Fica cômodo entrar nas redes sociais e condenar ou cancelar alguém. Muitas pessoas relatam que têm um alívio momentâneo, se sentem de “alma lavada” quando respondem de forma ofensiva uma postagem ou comentário. É comum vermos uma postagem de matéria jornalística ou um comentário do Papa gerar discussões políticas, como se um estivesse com a razão e o outro não.

Achar um potencial inimigo não resolve nenhum problema. Os problemas precisam ser enfrentados, primeiramente, com diálogo, com união, com cooperação e entendimento. Em seguida, precisamos de propósito (onde estamos e onde queremos chegar) e de muita educação e trabalho.

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