As profissões invisíveis retratam um cenário de desigualdade social

Como o próprio nome diz, a invisibilidade pode ser entendida como tudo aquilo “que, por sua natureza, sua distância ou sua pequenez, escapa à vista”. Pode ser o ar que respiramos, uma pessoa fazendo sua caminhada rotineira vista a 11.000 metros de altitude por um piloto de aeronave e até mesmo as surpreendentes formas únicas de cristais que geram os flocos de neve. Porém, o termo invisibilidade também pode ter uma conotação sociológica, ou seja, aquilo que a sociedade não enxerga ou pouco reconhece. E é dessa última que iremos tratar.

Esse artigo tem a pretensão de tratar da invisibilidade sob dois enfoques: o primeiro referente às profissões que não possuem um prestígio econômico e intelectual e acabam sendo despercebidas pela sociedade, em um processo chamado de cegueira psicossocial e o segundo relacionado às profissões que exigem nível educacional, mas não são reconhecidas como aquelas que transformam ou promovem melhorias para as sociedades nas quais estão inseridas.

 Sem diploma e sem prestígio econômico

São aquelas que se exige trabalho braçal. No imaginário social “qualquer um” pode realizá-la, portanto, ela carece de certo prestígio justificando seu rendimento econômico. Existem várias profissões operacionais que podem ser citadas aqui como: jardineiros, faxineiras, porteiros, garis, etc.

Todas elas se fazem presentes na vida das pessoas. Pelo menos uma vez ao dia você entra em um prédio que tem um porteiro, sua casa ou trabalho são limpos por um profissional da limpeza ou o lixo da sua casa é rigorosamente recolhido. Nesses casos, a invisibilidade não é física, não é acometida pela distância que se tem delas. A invisibilidade é moral, preconceituosa, “inserida em uma cultura que não reconhece que há uma divisão social em classes e profissões”.

Com diploma, mas também sem prestígio econômico

A invisibilidade do profissional com diploma está associada a como essas profissões se apresentam à sociedade, como defendem e mostram a importância de suas atribuições. Mas é claro que não é somente isso, há outros fatores, os quais não serão tratados aqui, que demonstram prestígio para o imaginário social como: o salário médio da profissão, oportunidades de trabalho,  dificuldade de acesso (cursos, por exemplo que possuem maior dificuldade de ingresso nas Universidades estão associados a carreiras mais reconhecidas), etc.

Ao contrário das profissões sem diploma mencionadas anteriormente, aqui encaixa-se a invisibilidade de atividades que exigem diploma, mas não tem o mesmo reconhecimento de outras profissões e não há a percepção de que esse saber seja devolvido em melhorias para a sociedade.

Poderiam ser citadas várias profissões, mas vamos trabalhar com o caso específico dos farmacêuticos. A farmácia é uma ciência da área da saúde, porém, muitas vezes o farmacêutico não recebe o reconhecimento de promotor da saúde pública por conta de três fatores verificados pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião:

– A percepção de que o farmacêutico é um profissional formado para gerenciar farmácias;

– A profissão está sendo absorvida pelo lado comercial do mercado, instigando a perspectiva de que o farmacêutico é um vendedor de medicamentos;

– O aumento da burocracia que o farmacêutico precisa dar conta diminui a sua presença e relacionamento com o paciente.

É necessário que haja a aproximação entre farmacêutico e consumidor visando a melhoria do nível de satisfação e reputação do farmacêutico. Conforme aumenta o contato direto com o farmacêutico aumenta o reconhecimento de sua importância para sociedade.

Os dois tipos de invisibilidade tratados revelam que existe uma desigualdade notória. Porém com diferentes tipos de abordagens:

–    A primeira relacionada a classe social, a indiferença de não ver o outro por ser um diferente, por ocupar uma posição hierárquica inferiorizada que não exige muitos requisitos para preenche-la.

– A segunda invisibilidade está relacionada a um processo de (des)profissionalização que ocorre com determinadas profissões que perdem seu espaço quando não fortalecem suas identidades profissionais.

Em ambos casos, a sociedade precisa avançar no reconhecimento e valorização de todas as profissões.

Débora Mello. Analista de pesquisa. Dedicada à epistemologia das ciências sociais, atua com afinco na análise de pesquisas qualitativas. Experiente em categorização e em análise de conteúdo, atuou na análise de projetos para: Grupo RBS, Rodoil, UCS, Eletrobras, Celulose Riograndense, entre outros.

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