Crowdfunding: Participação política no modelo colaborativo

Não se trata de retrospectiva, mas no início do ano o “Grito de Liberdade” ecoado pela escola de samba Paraíso de Tuiuti, vice-campeã do carnaval do Rio de Janeiro, já pincelava o rumo das eleições de 2018[1].

O enredo trouxe as críticas sociais e o descontentamento do povo com a política, bastante motivado pelos escândalos de corrupção, que já vinham em uma ascendente desde as últimas eleições e teve seu estopim quando 42,1 milhões de pessoas resolveram se abster do seu direito de votar esse ano.

Conforme análises dos estudos realizados pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, a corrupção no cenário político foi o principal agente influenciador do alto índice de abstenção, tendo estimulado a descrença da população.

Tentando combater os esquemas de corrupção no período eleitoral, uma das alternativas utilizadas pela justiça, a fim de obter recursos para as campanhas foi a utilização de uma ferramenta muito conhecida pelo marketing: Crowdfunding, o financiamento coletivo, também conhecido como “vaquinha virtual”.

Crowdfunding no mercado publicitário é conhecido como a estratégia utilizada para financiar uma ideia, seja ela um produto ou serviço. Cada pessoa colabora com quanto quiser e para cada faixa colaborativa, lhe é ofertado uma recompensa simbólica, ou seja, é um sistema que arrecada valores antecipadamente à execução de um projeto, construindo assim um novo capitalismo, um capitalismo das massas (crowd = multidão, funding = financiamento).

Esse sistema de financiamento é uma inovação trazida à legislação brasileira pela Lei n.13.488/2017, que incluiu dispositivos na  Lei das Eleições n.9.504/1997. Através dela os candidatos às eleições de 2018 puderam iniciar arrecadações de recursos para suas campanhas eleitorais, devidamente autorizados por empresas credenciadas pela Justiça Eleitoral.

Para garantir a integridade do processo uma das principais exigências do TSE foi de que todas as pessoas que realizaram alguma doação de valor aos candidatos devessem estar listadas na plataforma utilizada para passarem pelo processo de análise em relação ao valor doado, evitando assim irregularidades nas contribuições.

Crowdfunding carrega a esperança que chegue ao fim os processos que envolvem propinas e operações da Polícia Federal em cima de grandes partidos. O que se viu nessas eleições foram grandes mobilizações estratégicas para angariar financiamento às campanhas eleitorais. Essas mobilizações podem possibilitar condições de maior igualdade ao sistema permitindo que novos nomes, inclusive aqueles sem histórico político, tenham chances de obter arrecadações de modo rápido e direto.

Nova tendência: A decisão está ao alcance do eleitor. O eleitor passa a ser o principal destinatário e não mais as grandes empresas/indústrias. Como usuário do sistema digital, tem o poder de escolha sobre quais propostas lhe convém, quanto cidadão, em troca de sua contribuição financeira. Habitual nos projetos culturais, científicos ou beneficentes, o crowdfunding eleitoral permitirá a integração do eleitor em projetos específicos.

Desse modo, é capaz que no futuro o espírito do comportamento representativo seja estimulado pelo crowdfunding, já que grupos de eleitores alinhados poderão decidir por investimento coletivo em campanhas que se aproximem mais de suas ideologias e tendem a ficar motivados a monitorarem mandatos de candidatos nos quais depositaram seus votos.

[1] Nota: *O desfile foi marcado às várias críticas sociais, a escola traçou uma perspectiva desde os gritos dos escravos, aos “Guerreiros da CLT”. Assuntos que ainda seguem em pauta no cenário nacional.

Fábio D´Avila: Cientista da comunicação, é um entusiasta da área da pesquisa. Altamente comprometido com a gestão da informação, critica persistentemente os dados

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