E o Coronavírus continua a nos ensinar…

…que de repente, de uma hora para outra, tudo pode mudar. E passamos a viver em estado de guerra, com um inimigo invisível.

De repente o dinheiro não tem tanto valor, e não há como comprar álcool gel, vacina ou vaga na UTI. E quando menos esperávamos, tudo que era certo virou incerto. Nossa rotina mudou, as regras mudam e a cada dia ganhamos novas leis.

De repente não temos mais o direito de ir e vir. Não podemos mais circular de uma cidade para outra ou até mesmo sair de casa. E passamos a ter medo do que não conhecemos.

De repente temos que nos preocupar com o hoje, com a necessidade de ir ao supermercado ou a farmácia. E passamos a manter o distanciamento social, a nos isolar. Não podendo nem fazer o churrasquinho com a família.

De repente vemos gente egoísta comprando o que não precisa, mas também vemos muita gente solidária, ajudando quem precisa. E as manifestações físicas ocorrem pelas janelas, enquanto as fake news continuam a nos perseguir nas redes sociais.

De repente paramos de trabalhar e nos preocupamos com as contas que irão chegar e com o aluguel que vencerá. E passamos a ver novas regras de renegociação, de isenção e de anistia de juros e multas.

De repente vemos que não é fácil ser médico ou enfermeiro e que esses profissionais se tornam soldados dessa guerra invisível. E junto com eles estão profissionais que atuam no transporte de cargas, nos postos de combustíveis, nos mercados, farmácias e na segurança pública.

E de repente vemos muitas pessoas incrédulas, não acreditando que tudo isso é real, ampliando a margem de risco de outras pessoas e contaminado os mais frágeis e vulneráveis.

De repente vemos doentes entrando em hospitais sem seus familiares e acompanhantes e perdemos o direito de velar e enterrar o ente querido.

E no meio de tudo isso, vemos gente mostrando a sua intolerância política, buscando culpar o adversário ou uma nação inteira, como se uma ideologia ou partido político fosse o responsável.

De repente nos damos conta que o mundo paga milhões de salário para jogadores de futebol e não investe o suficiente na remuneração de cientistas.

E de repente todos tendem a ser contaminados, independentemente de sua ideologia política, classe, cor, religião ou poder econômico.

E a natureza nos coloca no nosso lugar, nos dizendo que devemos ter mais simbiose, que devemos ser solidários e respeitar o meio ambiente e o planeta Terra.

De repente temos um novo mundo se constituindo, que nos obriga a olhar a vida por outro ângulo. E nesse novo contexto, nada mais será como antes!

De repente poderemos nos reinventar como pessoas, como sociedade e como seres humanos. E teremos o livre arbítrio de escolher o novo caminho, de respirar fundo, secar as lágrimas e buscar a superação das perdas, de rever nossas ideais e valores. Podemos revisitar conceitos, diminuir o individualismo, o egoísmo e ter a clareza de que o direito de um termina quando começa o do outro.

De repente podemos resgatar os valores e princípios que perdemos, com a consciência de que todos temos que primar pelo bem comum, pelo interesse público. E que o jeitinho brasileiro é uma porta para sacanagem que inspira os políticos, e que cada um de nós precisa mudar, para que o país mude.

E de repente temos um novo mantra: tudo passa. Isso também irá passar e temos que manter a esperança e o otimismo.

https://www.coletiva.net/colunas/e-o-coronavirus-continua-a-nos-ensinar-,353208.jhtml

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

No Comments

Post A Comment

© 2016 IPO - Todos os direitos reservados