O eleitor: da expectativa às dores sociais

Muitas pessoas não gostam de falar sobre política e não acreditam nos partidos e nos políticos. Está se construindo um imaginário social de que a saída seja pela negação da política. E assim se amplia um fingimento coletivo: o eleitor faz de conta que não precisa da política e os políticos fazem de conta que não precisam dos eleitores.

Enquanto isso, os que se interessam por política estão divididos em dois grupos: os radicais e/ou intolerantes (que acreditam que a sua visão de mundo tem as melhores soluções para um país multicultural) e os que estão atônitos ou apáticos, observando os movimentos e esperando por um propósito, algo que possa manter as conquistas, avançar nas soluções dos problemas e desenvolver novas pautas.

E vamos tocando o dia a dia, sonhando com um país mais justo e solidário, desejando que os serviços públicos atendam às necessidades mínimas da população e que haja diminuição nos índices de desemprego e violência.

Mas, cada vez mais, a lista de expectativas dos eleitores se confunde ou é suprimida por uma lista de “dores sociais”. É mais ou menos assim que eles dizem: “Não dá para pensar em melhorar, quando se está sofrendo, quando se tem um problema sério”.

De forma geral, essas dores não são físicas. São dores emocionais, sentimentos, indignação e decepção que se acumulam e diminuem a autoestima da população.

Há alguns anos, as pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião mapeavam os sonhos e os desejos dos eleitores, que falavam do bairro que tinham e do bairro que queriam ter. Era comum que o eleitor pedisse mais vagas nas creches, ginásio para escola, calçamento de uma rua, abertura de um novo posto de saúde e assim por diante.

Hoje é cada vez mais comum o eleitor relatar os seus problemas e como eles trazem prejuízos para a sua vida. São as dores sociais que trazem preocupação e medo para a população e que prejudicam ainda mais a população de menor renda.

As dores sociais estão associadas à ineficiência dos serviços prestados pelo Estado ou até mesmo pela lentidão ou injustiças cometidas pela justiça.

A saúde pública é um bom exemplo para se entender uma das fontes de motivação das dores sociais. Imagine o número de pessoas que estão no aguardo de um exame especializado, o número de pessoas que aguardam uma cirurgia eletiva ou o número de pessoas que dependem de medicações especiais, e não vamos esquecer daquelas pessoas que passam dias à espera de um leito, sendo medicados em uma cadeira no corredor de um hospital.

Sabe-se que esses números chegam a milhares! Milhares de pessoas que têm nome, têm rosto, têm família, têm sonhos e, principalmente, têm pressa, pois lutam por sua vida.

Quem tem demandas não atendidas na área da saúde não tem expectativas de melhorias ou qualificações. Essas pessoas relatam seus problemas, suas preocupações e medos e esperam que o que era para funcionar, funcione! Que um hospital não tenha equipamentos quebrados, falta de medicamentos, leitos ou de médicos. Poderíamos fazer exercícios similares em áreas como saneamento básico, mobilidade urbana ou segurança pública.

É vital que os gestores públicos tenham clareza de que as dores sociais estão ganhando um espaço na cultura política da sociedade, alimentam a indignação e transformam descrença em negação. E que o tratamento traz consigo a necessidade de fazer “aquilo que precisa ser feito” em cada uma das áreas que compõem os serviços públicos.

 

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br
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