O futuro “apartheid tecnológico” do mundo do trabalho

O título deste artigo parece complicado, mas tem o objetivo de fazer uma reflexão sobre onde estamos e para onde vamos. Por princípio, o apartheid é um termo que traz consigo um contexto histórico de um sistema político utilizado na África do Sul e, atualmente, ainda é utilizado para descrever qualquer tipo de política ou prática que separa as pessoas de acordo com a sua raça.

Quando escrevo sobre o “apartheid tecnológico”, me refiro à separação natural que está ocorrendo entre as pessoas que sabem usar a tecnologia e as que não sabem e, principalmente, o que irá ocorrer com as pessoas que sabem trabalhar com a tecnologia e com as que não sabem.

Estamos vivendo uma revolução tecnológica e digital que está impactando no mundo do trabalho, que exige uma readaptação do mercado de trabalho e um constante reaprendizado dos trabalhadores.

Conforme a tecnologia vai entrando, vagas de trabalho vão sendo eliminadas. A tendência é que qualquer trabalho que seja rotineiro ou previsível seja assumido por uma tecnologia, por um algoritmo matemático. Nessa lógica, a tecnologia está eliminando os ascensoristas cabineiros de elevador, os porteiros de edifícios, os auxiliares de pedreiro e tantas outras profissões que não precisam de qualificação profissional. Mas os exemplos não param por aí, também entram nesse debate profissões que exigem uma certa escolaridade, como vendedores de varejo, cobradores de ônibus e até bancários. E o debate fica mais complexo quando se questiona a tendência de eliminar profissões que exigem curso superior como economistas e contadores, entre outros.

Os analistas tecnológicos afirmam que não há com que se preocupar, pois algumas profissões estão acabando e outras estão surgindo. Um exemplo prático são as profissões que trabalham com aplicativos (como Uber, IFood, Rappi, etc.). Essas pessoas são “donas dos seus instrumentos de trabalho” (que pode ser o carro, a bicicleta, etc.) e podem ser classificadas como empreendedoras. Essa lógica cria um conceito chamado de subtrabalho, que é a substituição do trabalho formal e que traz consigo a chamada precarização do trabalho (onde o trabalhador não tem direitos trabalhistas e precisa trabalhar mais horas por dia para garantir uma renda média).

Quando se pensa em um futuro próximo, temos um grande contingente de pessoas que não estão sendo preparadas ou requalificadas para trabalhar por aplicativos e, muito menos, sendo educadas para comandar máquinas ou programar e analisar dados. Essa falta de preparo está criando o “apartheid tecnológico” que irá resultar em uma parte da sociedade usufruindo do que é oferecido pela tecnologia e outra parte da sociedade sendo excluída, sem trabalho e rendimentos fixos.

Essa reflexão precisa nos levar a uma avaliação do nosso sistema de educação formal, de como as escolas estão preparando as nossas crianças e adolescentes para atuarem nesse futuro contexto profissional de tecnologia.

Com o avanço da tecnologia sem o devido preparo da sociedade, a falta de oportunidades de trabalho irá se agravar entre aquelas pessoas que têm ensino fundamental, independentemente da idade. E esse fenômeno tende a ampliar a desigualdade social.

O debate do tema é urgente e precisa envolver a academia, instituições e políticos e resultar em políticas públicas que efetivem um sistema de requalificação e educação condizente com a tendência do mercado.

 

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br
No Comments

Post A Comment

© 2016 IPO - Todos os direitos reservados