O olhar do gaúcho sobre o Brasil

Imagine um entrevistador do IPO – Instituto Pesquisas de Opinião lhe abordando e realizando a seguinte pergunta: “em sua opinião, o Brasil, nos últimos anos, mudou para melhor, está igual ou mudou para pior? E, depois, pedindo para que você relatasse as justificativas que sustentam sua percepção. Em dezembro, o IPO realizou este questionamento a 1.500 gaúchos, distribuídos nas sete mesorregiões do IBGE.

Os resultados indicam que 84,7% dos gaúchos avaliam que o Brasil piorou, 12,5% que o País está igual e, para 2,6%, está melhor.

Na leitura dos gaúchos, há dois problemas estruturais que resultam em consequências diretas para a população: corrupção e má gestão administrativa.

– Corrupção: A população reconhece que a corrupção é um problema endêmico e que faz parte da cultura política brasileira. Entretanto, aterroriza-se com os desdobramentos da operação Lava Jato e operações correlatas, seja pelo número de pessoas envolvidas, quanto pelo volume de recursos desviados. Relatam informações de valores desviados e fazem analogia com serviços públicos que poderiam ser executados (nas áreas da saúde, da segurança, da educação e de infraestrutura).

– Má gestão administrativa: Na percepção da população, a burocracia e a lentidão do serviço púbico estão a serviço da corrupção que amplia a má gestão pelo atendimento de interesses pessoais e pela prática de desvios e malversação de recursos públicos: “onde se tira de quem mais precisa”. Segundo os entrevistados, o atual presidente não tem legitimidade para fazer alterações na estrutura do País por estar envolvido no escândalo, comprometido com a política do “toma lá, dá cá”. A percepção negativa com o presidente se estende a todo Congresso (90% não confiam no Congresso Nacional).

Na percepção dos gaúchos, os desvios de recursos por corrupção e/ou por má administração trazem sérias consequências para a população, piorando a vida e diminuindo as expectativas com o futuro:

– Situação da economia: É um grande dilema da sociedade. Em especial a diminuição do poder de compra. Os entrevistados relatam os ganhos que tiveram em anos anteriores, com capacidade de aquisição de bens, melhoria da qualidade de vida e acesso a educação. Classificam 2017 como um ano de luta pela manutenção: manutenção de sua condição financeira, manutenção do emprego, manutenção das contas em dia.

– Redução dos serviços públicos: A população relata que o “cobertor tem diminuído” e o que “era ruim tem ficado pior”. Relatam que os problemas se agravaram nas áreas da saúde, da segurança pública, da educação e nas rodovias federais. Contextualizam obras não conclusas por todo o Estado: Upas inauguradas que não funcionam, creches que não foram concluídas, pontes e rodovias inacabadas.

– Reformas trabalhista e previdenciária: Diante de um cenário de dificuldade econômica e de descrença com os governantes, os eleitores criticam a reforma trabalhista e previdenciária. Avaliam que as mudanças são necessárias (tendo em vista o aumento da longevidade e o desenvolvimento das tecnologias). Contudo, acreditam que estas mudanças deveriam ser realizadas com mais envolvimento da sociedade e por um governo eleito para representar estas pautas.

Para os entrevistados, a esperança poderá ser renovada com o processo eleitoral de 2018, dependendo dos candidatos. A população vive um sentimento dicotômico de frustração e esperança. Preocupa-se com o hoje e sonha com o amanhã.

http://www.coletiva.net/colunas/o-olhar-do-gaucho-sobre-o-brasil,232791.jhtml

 

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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