Sairemos melhores dessa pandemia?

É cada vez mais comum o questionamento sobre a influência da pandemia no comportamento das pessoas e, em especial, se toda essa situação que estamos vivendo irá repercutir em uma sociedade melhor? Se as pessoas se tornarão melhores? Se o bem comum irá aumentar?

A sociedade gaúcha se divide nesse tema. Uns acreditam que a população irá evoluir, outros tantos avaliam que as coisas irão ficar da mesma forma, que as pessoas não irão mudar! E uma parcela não sabe avaliar!

Quem acredita que a pandemia irá melhorar o ser humano reconhece que estamos sendo obrigados a sair da zona de conforto. Que a realidade de incertezas ativa sentimentos negativos como o medo e a frustração e essa realidade nos faz perceber tudo o que estamos perdendo.

Quem crê na melhoria da sociedade também cita os princípios cristãos e o renascer para a solidariedade e a generosidade. Como se fosse uma provação que resultaria em um despertar.

Os que não têm esperança com a melhoria da base moral da sociedade, acreditam que as pessoas não irão mudar. Avaliam que com o fim da pandemia tudo irá continuar da mesma forma, cada um se preocupando consigo mesmo e a maioria tentando tirar vantagem, ganhando em cima do outro.

As críticas ao jeitinho brasileiro referendam a premissa de que cultura brasileira impede uma melhora na base da sociedade e que uma melhoria efetiva ocorreria com ações educacionais e culturais em médio prazo.

Nessa visão dicotômica, os bons continuarão bons e os maus continuarão maus. É fato que temos pessoas que se destacam pelas boas ações e as que ganham popularidade pelas más ações.

Mas, na prática, a maior parte da sociedade é composta pelas pessoas que não manifestam seu comportamento de uma forma mais enfática. Ou seja, vão tocando a sua vida e ficam à mercê das experiências positivas ou negativas, sendo influenciadas pela conjuntura em que vivem.

Antes da pandemia começar, as pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião indicavam que estávamos seguindo uma tendência de ampliação exacerbada do individualismo. As pessoas estavam cada vez mais ocupadas com os seus afazeres, com os seus interesses e as suas conquistas pessoais ou até com as suas postagens nas redes sociais. Era um cenário de aumento do egoísmo, da solidão e da ansiedade.

Com a pandemia estamos sendo obrigadas a avaliar conceitos. Começamos a viver com a incerteza, preocupação e com o medo. Passamos a olhar para o lado, para a nossa caminhada e para o outro. Esse movimento tende a diminuir o sentimento de individualismo, a unir mais as pessoas que dividem o mesmo espaço na quarentena. Tanto o medo quanto a dificuldade diminuem a arrogância e, por consequência, o egoísmo.

Um acaba precisando mais do outro! Um irmão precisa da ajuda do outro para fazer o trabalho escolar. Uma cunhada precisa do apoio da outra para cuidar do filho. O vizinho precisa falar com o outro vizinho para pedir que realize uma compra. O filho precisa ser mais empático com o pai, pois precisa de ajuda financeira. E assim por diante. Não é à toa que dizem que a dor ensina a gemer!

Esse movimento de adesão por necessidade ou por receio amplia o envolvimento entre as pessoas, os laços de solidariedade, cria o sentimento de pertencimento, de comunidade, mesmo que seja dentro do mesmo grupo familiar. E como esse é um movimento de bem-comum, uma parcela da sociedade irá evoluir com tudo isso!

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https://www.coletiva.net/colunas/sairemos-melhores-dessa-pandemia,361828.jhtml

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Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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