Volmiro deu a vida à BR 116 SUL

Volmiro Silva da Rosa, 48 anos, era casado e pai de duas filhas. Semanalmente, seu trabalho era receber os passageiros com um cumprimento na porta do ônibus do Expresso Embaixador, para logo depois lhes indicar a poltrona. Antes de o ônibus partir, com a timidez que lhe era peculiar, Volmiro dizia o destino da viagem, que o uso do cinto de segurança era obrigatório, que havia água no frigobar e desejava uma boa viagem a todos.

Todos os dias, durante 17 anos, Volmiro colocava sua vida à prova na BR 116 SUL e guiava a vida de quase uma centena de pessoas que se destinavam de Pelotas a Porto Alegre ou vice e versa.

A viagem com Volmiro era sempre serena. Era um motorista prudente, mostrava que dominava a arte de dirigir e quando estava no comando do ônibus, os passageiros podiam dormir, trabalhar, conversar ou, até mesmo, contemplar a paisagem com muita tranquilidade. Os mais apressados podiam até se estressar com ele, mas ele tinha sempre o mesmo ritmo e a resposta de que era importante chegar com segurança.

Muitos e muitos artigos escrevi dentro do ônibus do Expresso Embaixador, sabendo que Volmiro estava nos conduzindo pela BR 116 Sul, uma estrada sem duplicação e por onde passa toda a frota de veículos que se destina à região Sul do Estado.

Minhas conversas com ele sempre se limitaram ao obrigado, quando me cumprimentava ou quando desejava uma boa viagem a todos. Hoje, penso que deveria ter dito que era um ótimo motorista e que eu confiava minha vida a ele em cada viagem.

Nesse último dia 23 de maio, Volmiro perdeu a vida em um acidente envolvendo um carro e um caminhão no KM 433 da BR 116 e os depoimentos dão conta de que Volmiro foi um herói, sua habilidade na condução do ônibus guardou a vida de muitos passageiros.

Volmiro é um exemplo que representa simbolicamente tantas e tantas outras vidas que se foram em uma rodovia em que as obras de duplicação ficaram por longo tempo paradas e estão sendo retomadas a passos lentos. No mesmo acidente, Eduarda Bechel, de 26 anos, também perdeu a vida e deixou uma filha de quatro anos. Mas há uma centena de outros nomes, que deixaram histórias, que deixaram amores e que deixaram muita saudade.

Podemos refletir sobre a imprudência dos motoristas ou sobre a falta de fiscalização, mas, antes, temos que debater sobre os riscos de uma BR sem duplicação. Uma estrada com pista única por onde passam milhares de veículos.

E para fazer este debate teremos que pensar nos problemas históricos que assolam a política brasileira, como a perda de muitos recursos para a corrupção ou pela malversação das obras.

Mas, mais do que isso, teremos que debater a falta de visão dos governantes deste País e a incapacidade de estabelecer uma política de estado, com um planejamento sistêmico: se cresce a população, se cresce a frota de veículos, se cresce a produção é necessária a ampliação da malha rodoviária, é vital a duplicação das rodovias.

Não é à toa que o movimento tem sido ao contrário, a sociedade civil organizada é quem tem pressionado os governantes e representantes do povo a perceberem o óbvio: que é necessário investir nas estradas, que é por onde passam milhares de vidas e a riqueza deste País.

Um case de referência da sociedade organizada e que merece todo o respeito e apoio é o movimento ‘BR 116 Sul: Duplicação Urgente’, que foi criado para dar visibilidade ao tema e que sofre cada vez que um Volmiro dá sua vida à falta de duplicação.

 

http://www.coletiva.net/colunas/volmiro-deu-a-vida-a-br-116-sul,300288.jhtml

 

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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