Grupo focal: o divã do eleitor

Em minha prática profissional, ao fazer e analisar pesquisas, muitas curiosidades são constatadas e, não é diferente, quando o tema é eleição.

Percebo, ao ler várias pesquisas que, a cada nova eleição, vêm e vão nomes novos e outros nomes estão sempre lá. O cidadão está mais cético, nós cientistas sociais e políticos afirmamos que o eleitor não é bobo e que sabe o que quer, mas uma coisa é sempre igual: o eleitor ainda acredita que chegará um “Salvador da Pátria”! Este “Salvador” é alguém criado de acordo com os ideais de político perfeito, embora percebam que tudo conspira contrariamente e afirmem que não há honestidade na política, que há corrupção, falta de ética e de caráter, dentre outras mazelas vividas pelo povo.

De posse de toda sua esperança, assim como na obrigação do voto, vão às urnas, votam e se decepcionam novamente. Vêm os anos… outras eleições… os mesmos dilemas… e vão votar novamente… E assim continua este ciclo de “perceber” o negativo e “apostar” no positivo, sonhando que, desta vez, será diferente.

Mas por que será que, apesar da visão negativa, ainda acreditam que vá aparecer alguém ideal, honesto e que trabalhe pelo e para o povo?

Para responder uma questão como esta, uma das técnicas utilizadas pelo IPO é a pesquisa qualitativa, que permite a compreensão de crenças, atitudes, valores, motivação de diferentes grupos sociais e ocorre através de entrevistas em profundidade (EP’s) ou pela realização de grupos focais. A maior diferença entre elas é que, enquanto a entrevista em profundidade trava uma conversação “um a um”, entre entrevistador e entrevistado, os grupos focais permitem uma interação maior entre os vários participantes e dos participantes com o moderador.

Os grupos focais acontecem de forma a deixar o participante bem à vontade, em um encontro bem informal, em local próprio para receber um grupo de pessoas que não se conhecem, mas que acabam criando uma identidade grupal, interagindo, concordando e discordando sobre o tema. Estas reuniões são conduzidas por um mediador, que segue um roteiro previamente elaborado, a fim de levantar as percepções e justificativas do grupo.

Trata-se de uma pesquisa com várias etapas de desenvolvimento (após toda preparação e planejamento), que instiga os participantes a considerarem o ponto de vista dos outros para formular suas próprias respostas, comentando suas experiências e as dos outros. Essa é uma das principais riquezas do grupo focal! Há uma interação do grupo (mais do que a soma das suas partes), é possível observar o processo do grupo, a dinâmica da atitude, a mudança de opinião e a existência de um envolvimento emocional (raramente visto com uma entrevista em profundidade).

A figura abaixo, elaborada a partir de Bauer e Gaskell (2015), descreve as etapas ocorridas durante a reunião, que passam desde a apresentação dos participantes até a hora da despedida, finalizando o encontro.

Bom, em relação a resposta à pergunta “Mas por que será que, apesar da visão negativa, ainda acreditam que vá aparecer alguém ideal, honesto e que trabalhe pelo e para o povo?”, as pesquisas qualitativas permitem trazer à tona as percepções, ações e discursos dos participantes, constatando o que vai além da negatividade: a esperança!

E a esperança e o sonho, de que virão dias melhores, transforma o olhar negativo em positivo perante os políticos e a política. Essa percepção positiva pode ser explicada por Corso (2011) ao afirmar que, embora as pessoas se vejam racionais e com os “pés no chão”, vivem fantasiando o ideal, sonhando com o que é almejado por elas, independente de poder ocorrer ou não. Para os psicanalistas, o ser humano vive mais no mundo da fantasia do que no da realidade: “Na prática somos casados com a realidade, mas só pensamos em nossa amante: a fantasia”.

 

BAUER e GASKELL. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. 13. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015

CORSO, Diana Lichtenstein. A psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia / Diana Lichtenstein Corso, Mário Corso. – Porto Alegre: Penso, 2011.

 

Gisele Miura é uma Cientista social, inspirada em desvendar o comportamento do consumidor, fez MBA em Marketing e nas últimas duas décadas se envolveu nos mais variados projetos de pesquisa, em várias partes do país. Atua no atendimento ao cliente, desvendando os problemas de pesquisa e mediando o relacionamento do IPO com o mercado.

 

 

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