Os impactos da pandemia

Ninguém esperava por uma pandemia.

Ninguém sonhava que os abraços, beijinhos e apertos de mão fossem suprimidos.

Ninguém podia esperar que os aniversários não ocorressem comemorados com aquela aglomeração de família, que as festas de casamentos fossem postergadas e as formaturas adiadas.

Ninguém imaginava que as escolas seriam fechadas e que fossem instituídas aulas emergenciais remotas.

Ninguém esperava que as novelas globais parassem de ser gravadas, que a produção de filmes fosse suspendida e os cinemas fechados.

Ninguém acreditaria que os principais pontos turísticos do país fossem interditados ou ficassem vazios.

Ninguém imaginava ver a Fórmula 1 parar, os campeonatos de futebol serem cancelados e as olimpíadas adiadas.

Ninguém podia imaginar que decretos e mais decretos restringiriam drasticamente a circulação de pessoas e fechassem estabelecimentos comerciais.

Ninguém projetou a tendência de queda do PIB, as perdas econômicas e a precarização financeira do governo e da sociedade.

Ninguém estimou perder um parente ou amigo para um inimigo invisível e ninguém nunca pensou em não ter o direito de acompanhar o seu ente querido em seus momentos finais.

Ninguém sinalizou que decisões difíceis seriam tomadas em prol da vida e que essas decisões teriam reveses na saúde financeira e emocional da sociedade.

A pandemia chegou sem avisar, sem pedir licença, sendo apresentada pelos especialistas como um risco para a saúde física, para a vida das pessoas. E os impactos da Covid-19 estão trazendo muitas sequelas para toda a sociedade, para além da saúde física.

As pesquisas realizadas no RS pelo IPO – Instituto pesquisas de Opinião, nesses primeiros dias de setembro, indicam que a maior parte da população está sentido os impactos da pandemia e esses impactos estão associados à saúde financeira e emocional.

Um terço dos gaúchos reclama que estão sofrendo com o endividamento ou com a total falta de recursos. Os problemas financeiros são de diferentes naturezas e intensidades. Têm aqueles que estão com dificuldade de pagar as contas, há os que reclamam porque não recebem o aluguel, têm os que estão preocupados porque não conseguem pagar o aluguel, têm os que se endividaram e não tem mais de onde buscar recursos e têm os que não tem dinheiro nem para a comida.

Um terço dos gaúchos relata que o impacto é em sua saúde emocional. Se destacam os que estão sofrendo com a falta de recurso financeiro e a preocupação com as contas ou com a mudança no padrão de vida. Um outro grupo significativo, traz as celeumas familiares, o estresse presente na educação remota dos filhos, na ampliação do conflito familiar a na falta de opções de lazer.

Para uns 30% da população a pandemia não trouxe sequelas. São pessoas que têm recursos financeiros e renda fixa. Vivem em moradias que lhes garante uma qualidade de vida e estão se reinventando com o vírus, tendo mais tempo para família e até fazendo coisas que há tempos não faziam.

E apenas 5% dos entrevistados afirmam que a pandemia trouxe impactos para a sua saúde física. São pessoas que não conseguiram fazer o tratamento preventivo de saúde, que tiveram sua saúde agravada pela ansiedade e inclui aqueles que foram contaminados pelo vírus.

Ninguém imaginava que a pandemia pudesse fazer tantas mudanças e trazer tantos impactos, que afetaria a vida das pessoas dentro e fora de suas casas.

.
.
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br
No Comments

Post A Comment

© 2016 IPO - Todos os direitos reservados